segunda-feira, 29 de setembro de 2014

O que é política?

Quando se fala em política, a primeira coisa que vem à mente de muitas pessoas é a ideia de Estado ou governo. Geralmente, o imaginário ligado à palavra “política” remete a homens engravatados discutindo ideias em um parlamento. Bem, isso é realmente política, mas política não se limita a isso. É como você falar que um carro é “uma coisa com rodas”. Sim, um carro é de fato “uma coisa com rodas”, mas não é somente isso. Política é muito mais do que simplesmente a ideia de Estado ou de governo, assim como um carro é muito mais do que “uma coisa com rodas”.
Estamos falando de algo realmente complicado de se definir. Um primeiro critério ao qual precisamos recorrer ao falar de política é a existência do conflito. A sociedade é heterogênea, as pessoas são diferentes umas das outras e pensam de formas diferentes. As antigas definições de política recorriam com frequência a termos como “bem comum”, “bem coletivo” e outras abstrações do tipo. Dessa forma, para muitos, a política se tratava de uma forma de promover o bem comum. Mas o que é esse tal “bem comum”? Certamente, cada um de nós terá uma resposta a essa questão. O funcionário pode achar que o bem comum é uma coisa, mas o patrão pode – e provavelmente vai – discordar. Quem está certo, afinal? Não se trata de dizer quem está certo, mas o que essa pergunta nos mostra é o quanto é difícil – ou impossível, pode-se dizer – chegar a um consenso acerca do que deve ser o “bem comum”. Mesmo que se possa chegar a um consenso acerca do que é o bem comum, ainda haverá a questão de como chegar até ele. Como já foi dito, a sociedade é composta por pessoas com experiências de vida distintas e visões do mundo que muitas vezes se colidem. O conflito irá existir. Faz-se necessário, então, criar uma “arena” onde os conflitos da sociedade possam se manifestar. Criam-se instituições, regras que estipulam como o conflito deve ocorrer e de que forma as pessoas ou grupos podem lutar para impor sua visão de mundo.  De outra forma, o conflito poderia chegar a dimensões catastróficas, cada um querendo impor pela força seu projeto político e sua visão de mundo.
Outro elemento central, que deve ser resgatado em qualquer entendimento da política, é o discurso. Quando falo de discurso não me refiro a textos previamente elaborados e reproduzidos por um político, sobre o púlpito, para uma multidão de pessoas. Não. Discurso aqui tem o sentido de fala. Faz-se política por meio do discurso. 
É necessária também, para a política, uma noção de futuro comum, já que as questões políticas são aquelas que afetam a vida de todos na sociedade. Além disso, há um aspecto que autores hoje considerados clássicos chamaram a atenção: a existência de uma esfera pública e uma esfera privada. As decisões políticas, nesse contexto, são tomadas na esfera pública. O domínio da esfera privada é aquele que diz respeito às questões de ordem particular, tendo como exemplo a família e as relações que ocorrem no interior desta. Para esses autores (e me refiro principalmente aos chamados contratualistas), a esfera privada não é politicamente relevante, o que lá acontece não tem importância política. Eles, no entanto, não podiam estar mais enganados, e as feministas demonstraram isso. É muito importante frisar que essas esferas (pública e privada) não existem naturalmente, mas são fruto de uma construção social. Nesse sentido, a perspectiva feminista é muito útil à teoria política, pois chama atenção ao fato de que as relações no interior da esfera privada possuem sim efeitos políticos importantes, mas isso é assunto para outra hora. 
Por último, mas não menos importante, temos o poder. Política trata-se de poder. A ciência política tem como objeto – não exclusivamente, é claro – as relações de poder. É por isso que falar de desigualdades raciais, de gênero, etc. é falar de política. Falar de política não é só comentar o debate eleitoral, as ações do (da) Presidente da República, dos (das) deputados, dos partidos, mas também falar sobre as assimetrias (desigualdades) de poder no interior da sociedade, pois essas assimetrias têm importante efeito político.

Em suma, creio ter conseguido indicar aqui as principais ideias relacionadas à política (conflito, discurso, futuro comum, relação entre as esferas, poder), mas tenho absoluta consciência de que o que foi dito aqui é, em boa parte, simplificação. Pode-se questionar alguns aspectos aqui abordados – afinal, nada nem ninguém está imune a críticas -, mas espero ter conseguido clarear a percepção de alguns sobre essa questão tão difícil que é “O que é a política?”. 


Renan Almeida.

domingo, 21 de setembro de 2014

Por que criar um blog?

A internet é um meio de comunicação no qual tudo acontece muito rápido. A velocidade de propagação das informações é elevada, assim como a velocidade com que essas informações caem no esquecimento. Um vídeo tem um pico de visualizações num curto período de tempo, por todos os lugares todos o comentam, mas na semana seguinte já não se fala mais dele. Esse é o vídeo viral.
Na internet, tudo envelhece rápido, torna-se obsoleto, ultrapassado. Só sua tia ainda comenta sobre o vídeo do gato tecladista. Contudo, muitas coisas vão e voltam, como é o caso dos hoaxes. Hoaxes são narrativas fantasiosas, geralmente falam de conspirações, possuem quase sempre tom alarmista e pedem para que a mensagem seja passada para frente. Quem nunca recebeu um e-mail alertando que todos os bebês nascidos na Europa teriam de receber um microchip sob a pele? Ou que para cada compartilhamento no facebook aquela garotinha com câncer receberia 10 centavos de dólar?
A internet tem sua própria dinâmica. Em tese, todos podem se expressar, o ambiente é plural, democrático. Em tese porque poder falar não implica na consequência de ser ouvido. Implica, no máximo, em poder ser ouvido. Mas nesse ambiente aparentemente plural e democrático, não são todos os que possuem os recursos necessários para se fazerem ouvir. Não podemos esquecer, também, que a rede possui uma ancoragem física, ou seja, quando você hospeda algum conteúdo na "nuvem", como se fosse algo abstrato e inacessível, você só está, na verdade, salvando esse conteúdo em uma unidade de armazenamento que não a do seu próprio computador, mas que possui uma localização física em algum ponto do mundo.
Por que, então, diante de tudo isso, criar um blog? Por que se dar ao trabalho de escrever um texto, por exemplo, criticando o humorista que propaga o racismo com suas piadas se, com um único tweet ou postagem no facebook, ele alcança muito mais pessoas? A resposta reside no fato de que, independentemente disso, as pessoas sentem a necessidade de se expressar. Essa necessidade varia de pessoa para pessoa. Para algumas, uma conversa com os amigos já é suficiente para supri-la, para outras não. Então, mesmo que somente a mãe e os amigos mais próximos do Fulano acessem o "blogdofulano.blogspot.com", Fulano ainda vai querer escrever, caso sua necessidade seja tal. Além disso, Fulano pode gostar de escrever, pode acreditar que seja bom treinar sua escrita. Fulano é como eu, exceto pelo fato de que nem minha mãe lê os meus textos. Ser ouvido é muito importante, mas não é a única motivação para a fala. Por que falamos sozinhos? Para organizar nossas próprias ideias e convicções em nossas cabeças, talvez. Bem, que seja esse então o objetivo desse blog.

Renan Almeida.