Quando
se fala em política, a primeira coisa que vem à mente de muitas pessoas é a
ideia de Estado ou governo. Geralmente, o imaginário ligado à palavra “política”
remete a homens engravatados discutindo ideias em um parlamento. Bem, isso é
realmente política, mas política não se limita a isso. É como você falar que um
carro é “uma coisa com rodas”. Sim, um carro é de fato “uma coisa com rodas”,
mas não é somente isso. Política é muito mais do que simplesmente a ideia de
Estado ou de governo, assim como um carro é muito mais do que “uma coisa com
rodas”.
Estamos
falando de algo realmente complicado de se definir. Um primeiro critério ao
qual precisamos recorrer ao falar de política é a existência do conflito. A
sociedade é heterogênea, as pessoas são diferentes umas das outras e pensam de
formas diferentes. As antigas definições de política recorriam com frequência a
termos como “bem comum”, “bem coletivo” e outras abstrações do tipo. Dessa forma, para muitos, a política se tratava de uma forma de promover o bem comum. Mas o que
é esse tal “bem comum”? Certamente, cada um de nós terá uma resposta a essa
questão. O funcionário pode achar que o bem comum é uma coisa, mas o patrão
pode – e provavelmente vai – discordar. Quem está certo, afinal? Não se trata
de dizer quem está certo, mas o que essa pergunta nos mostra é o quanto é difícil
– ou impossível, pode-se dizer – chegar a um consenso acerca do que deve ser o
“bem comum”. Mesmo que se possa chegar a um consenso acerca do que é o bem comum, ainda haverá a questão de como chegar até ele. Como já foi dito, a sociedade é composta por pessoas com
experiências de vida distintas e visões do mundo que muitas vezes se colidem. O
conflito irá existir. Faz-se necessário, então, criar uma “arena” onde os
conflitos da sociedade possam se manifestar. Criam-se instituições, regras que
estipulam como o conflito deve ocorrer e de que forma as pessoas ou grupos
podem lutar para impor sua visão de mundo.
De outra forma, o conflito poderia chegar a dimensões catastróficas,
cada um querendo impor pela força seu projeto político e sua visão de mundo.
Outro
elemento central, que deve ser resgatado em qualquer entendimento da política,
é o discurso. Quando falo de discurso não me refiro a textos previamente elaborados
e reproduzidos por um político, sobre o púlpito, para uma multidão de pessoas. Não.
Discurso aqui tem o sentido de fala. Faz-se política por meio do discurso.
É
necessária também, para a política, uma noção de futuro comum, já que as
questões políticas são aquelas que afetam a vida de todos na sociedade. Além disso, há um aspecto que autores hoje considerados clássicos chamaram a atenção: a existência de uma esfera pública e uma esfera privada. As
decisões políticas, nesse contexto, são tomadas na esfera pública. O domínio da esfera privada é aquele que diz respeito às questões de ordem particular, tendo como exemplo a família e as
relações que ocorrem no interior desta. Para esses autores (e me refiro principalmente aos chamados contratualistas), a esfera privada não é politicamente relevante, o que lá acontece não tem importância política. Eles, no entanto, não podiam estar mais enganados, e as feministas demonstraram isso. É muito importante frisar que essas esferas (pública e privada) não existem naturalmente, mas são fruto de uma construção social. Nesse sentido, a perspectiva feminista é muito útil à teoria política, pois chama atenção ao fato de que as relações no interior da esfera privada possuem sim efeitos políticos importantes, mas isso é assunto para outra hora.
Por
último, mas não menos importante, temos o poder. Política trata-se de poder. A
ciência política tem como objeto – não exclusivamente, é claro – as relações de
poder. É por isso que falar de desigualdades raciais, de gênero, etc. é falar
de política. Falar de política não é só comentar o debate eleitoral, as ações
do (da) Presidente da República, dos (das) deputados, dos partidos, mas também
falar sobre as assimetrias (desigualdades) de poder no interior da sociedade, pois essas assimetrias têm importante efeito político.
Em suma, creio
ter conseguido indicar aqui as principais ideias relacionadas à política
(conflito, discurso, futuro comum, relação entre as esferas, poder), mas tenho
absoluta consciência de que o que foi dito aqui é, em boa parte, simplificação. Pode-se questionar alguns aspectos aqui abordados – afinal, nada nem
ninguém está imune a críticas -, mas espero ter conseguido clarear a percepção
de alguns sobre essa questão tão difícil que é “O que é a política?”.
Renan
Almeida.
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